O Lapf foi criado em 2008 no âmbito do Departamento de Educação da PUC-Rio, tendo sido registrado no diretório do CNPq entre 2009 e 2011. Seu objetivo foi a promoção da análise dos processos de agenciamento de identidades, memórias e territórios coletivos, em sua relação com os processos de produção e transmissão do conhecimento, tanto em suas modalidades escolares quanto não escolares. A partir de 2012, porém, suas atividades regulares foram encerradas. Este espaço permanece disponível como registro desta experiência de pesquisa e como meio para que seus antigos participantes eventualmente possam continuar divulgando e promovendo o tema.

sábado, 24 de março de 2012

Discurso de Paraninfo da turma de Pedagogia da PUC-Rio / Formatura em janeiro de 2012

Bom dia.


Obrigado pelo convite para estar aqui ocupando este lugar tão significativo.


Obrigado por este último gesto de carinho e pela oportunidade de retribuí-lo uma última vez, como professor que se dirige aos seus estudantes.


Este momento de limiar, de passagem, de transição, de inflexão, não pode deixar de ser dramático e emocionante.


Estamos no cais, prontos a tomar o navio que nos oferece uma viagem de conquista. E nem mesmo temos certeza de que a terra é redonda, não sabemos dos monstros marinhos que nos esperam no caminho, nem se além do horizonte existem terras novas e inexploradas, como nos prometeram, ou simplesmente o abismo que tanto tememos.


Estamos diante do fim de um período de comunidade, que a sala de aula e as turmas de amigos nos oferecem, e o início de um período em que nos veremos como indivíduos sós diante do mercado.


A passagem de um momento em que dizemos estar aprendendo, para outro, nos qual seremos solicitados a dizer que estamos ensinando.


A passagem de um momento em que nos são permitidas todas as dúvidas para outro em que nos serão exigidas muitas certezas.


Quando eu me perguntava como me dirigir a vocês neste momento, se como estudantes dos quais me despeço ou como profissionais que cumprimento pela primeira vez, ocorreu-me que é justamente sobre este ponto que incide o discurso dos dois grandes pensadores que eu aprendi enquanto lhes dava aulas: John Dewey e Paulo Freire.


Ambos insistem em um mesmo ponto: não é possível ser um sem ser o outro.


No caso, não é possível ser professor sem manter o espírito forte de quem está aprendendo, assim como não é possível estar de forma feliz e confortável no lugar de estudante se nos pensamos como ‘tabulas rasas’, destituídas de qualquer conhecimento que possa ser transmitido nesta mesma relação de ensino-aprendizado.


Esta idéia pode ser tão facilmente quanto falsamente tomada ou como uma posição populista, ou como uma receita quase técnica sobre como dar aulas.


No entanto, ela expressa um saber muito mais fundamental sobre o humano e sobre nossa sociedade. A idéia de que não é possível ensinar sem aprender, do mesmo modo que não é possível aprender sem ensinar.


Mas isso não nos é dito por Freire e Dewey como uma constatação, ainda que também o seja.


Isso nos é dito como um projeto, como uma proposição de postura diante da escola, mas fundamentalmente, diante da vida.


Por isso este discurso é também um agradecimento: Obrigado por me ensinarem a ser professor. Obrigado por me ensinarem Paulo Freire e John Dewey por meio da necessidade de dialogar com suas dúvidas sobre eles.


(e, é claro, me perdoem o sofrimento imposto das ‘fichas de leitura’)


Mas a idéia expressa por estes pensadores, aparentemente tão simples, é cheia de conseqüências que ultrapassam o universo escolar. O que eles nos dizem quando dizem que não é possível ser um sem ser o outro é também que não é possível ser em sim, sem ser no outro.


Vivemos a ilusão de que o mudo plenamente adulto, o mundo que fica para além deste limiar em que nos encontramos agora, é um mundo em que finalmente seremos nós mesmos, em que já não dependeremos ou deveremos nada a ninguém e no qual poderemos conquistar nossas certezas.


Mas quando aqueles pensadores nos dizem que não é possível ser em sim, sem ser no outro (aliás, pedra fundamental da Antropologia) eles estão também nos dizendo que esta individualidade plena e orgulhosa é o oposto do que deveríamos pretender.


Em lugar disto, eles nos permitem fazer um elogio da Dúvida e da Dívida.


Se a certeza é esta árvore frondosa e vistosa, sob a qual nos abrigamos, seus frutos contém o veneno que nos prende e imobiliza junto a ela, aos nos cegar para a luz do descampado.


As dúvidas, pelo contrário, são estes arbustos espinhosos, coloridos e caóticos que temos que cultivar com coragem e tesoura forte. Que nos mantém expostos à luz e nos oferece frutos pequenos, mas muito doces, que depois de colhidos, vamos buscar em outros arbustos, nos colocando em um movimento constante.


Mas se as dúvidas nos movem, as dívidas nos oferecem os fios que nos ligam e não nos deixa nos perder.


Em nossa sociedade monetarizada, as dívidas são pesadelos da nossa relação com o mercado, com o Estado, com a justiça ou com a polícia. Como diria o ditado popular bem afeito a esta recusa da dívida: ‘quem não deve não teme’.


O que outras sociedades, em especial as sociedades tradicionais, nos ensinam, porém, é que as dívidas não devem ser eliminadas, mas pelo contrário, devem ser cultivadas com todo cuidado. As boas dívidas não podem porque não devem ser saldadas. São as dívidas que ligam as pessoas entre si, são elas que garantem que o vínculo será lembrado e que o fluxo de objetos, saberes, afetos será constante.


A recusa em saldar a dívida é tanto a humildade de reconhece que não somos capazes de retribuir à altura os dons que nos são oferecidos, tanto quanto o desejo de oferecer mais do que recebemos e, por meio da oferta farta, nos tornarmos socialmente respeitados.


Em épocas de tantas avaliações, de tantas aulas a distância, de tantas drogas que em lugar de nos oferecer outros estados de consciência nos servem para domesticar crianças excessivamente (para quem?) ativas, criativas, falantes e trocantes, eu gostaria de lançar mão do privilégio que vocês me ofereceram para evocar este projeto de olhar para o outro em sua diversidade, e de, por meio dste outro, nos aprendermos constantemente diversos também.


Por isso encerro lhes oferecendo um último dom, na forma de um breve texto da Clarice Lispector:


“Não é a toa que entendo os que buscam caminho. Como busquei arduamente o meu! E como hoje busco com sofreguidão e aspereza o meu melhor modo de ser, o meu atalho, já que não ouso mais falar em caminho. Eu que tinha querido. O Caminho, com letra maiúscula, hoje me agarro ferozmente a procura de um modo de andar, de um passo certo. Mas o atalho com sombras refrescantes e reflexo de luz entre as árvores, o atalho onde eu seja finalmente eu, isso eu não encontrei. Mas sei de uma coisa: o meu caminho não sou eu, é outro, é os outros. Quando eu puder sentir plenamente o outro estarei salvo e pensarei: eis o meu ponto de chegada.”
jm arruti 

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